De repente você é despedido, perde aquela promoção no trabalho, o relacionamento amoroso fica complicado ou até mesmo a saúde chega a um ponto que já não é mais um probleminha. E não há outra escolha a não ser lidar com o problema de frente. É certo que depois de passar por uma crise dessas, você nunca mais será a mesma pessoa. Mas isso é bom ou ruim?

Para responder esta pergunta, Luiz Felipe Ormonde, o master coach e professor do MBA executivo em liderança e gestão empresarial do Ipog, observa que antes é preciso entender por que sofremos crises. Ele explica que todo ser humano tem um potencial imenso, o qual é constituído de talentos, habilidades e capacidades que nem sempre a pessoa a reconhece em si.

Um dos fatores que podem levar ao enfrentamento de uma crise é a acomodação que advém de um contentamento enganoso, no entanto esse estágio não dura por muito tempo. Isso porque ele acrescenta que a própria vida trata de apresentar sinais de que algo está errado. Alertas do tipo: o relacionamento não está bom; esse trabalho não lhe faz feliz; você não está cuidando bem da sua saúde, dentre outras inquietações.

“As pessoas costumam ir lidando com isso de qualquer forma, fingindo que não está acontecendo. Até que chega um momento em que a vida diz ‘chega’ e aquilo se transforma em uma crise. Não interessa para a vida que você se acomode, que seu potencial não se expresse. A crise vem como uma forma de você sair dessa zona de acomodação”, afirma.

 

INTERPRETAÇÃO

Ele avalia que as crises são crises também em função da própria maneira de como a pessoa interpreta o acontecimento. Determinada situação vivida por várias pessoas ao mesmo tempo terão significados diferentes. Para algumas pode ser motivo de grande desespero e desequilíbrio emocional, enquanto para outras pode representar uma forma de superação, de ter estímulo e de realizar algo maior.

“Todas as crises têm um lado emocional com o qual a gente tem dificuldade de lidar por causa do sofrimento que elas nos causam. Mas, apesar disso, todas elas nos trazem alguma possibilidade de perceber coisas novas. A possibilidade de superar alguma limitação que a gente tem, de perceber novas formas de viver, trabalhar, de cuidar de nossa saúde, de cuidar de nossos relacionamentos e assim por diante”, destaca.

Quando os problemas surgem dos questionamentos

As crises fazem parte da nossa existência. A mais comum e frequente delas é a existencial. Ela é consequência da consciência que temos de nossa própria vida e de sua finitude. Surge de questionamentos que fazemos a partir dessa realidade, tais como: “De onde viemos?”, “Para onde vamos?”, “Por que e para que estamos neste mundo?”. São questões filosóficas que várias teorias, crenças e religiões tentam esclarecer.

Para a doutora em Psicologia e professora Purificación Martin, do Ipog, a resposta para essas crises cada pessoa encontra. Outros, todavia, vivem em conflitos intermináveis. “Mas sempre fica certa angústia que paira no ar e que dói no coração. Ela acontece de momentos em momentos, dependendo dos acontecimentos cotidianos”.

Retoma ainda sobre as crises ocasionais, que são portadoras de acontecimentos difíceis de elaborar e geram, por tempo determinado, dor e desconforto. Atrapalham o rendimento, a produção, pois desviam os pensamentos e sentimentos daquilo que temos como tarefas do dia a dia. Pode ser resultado de alguma perda significativa, de um fracasso na vida, de uma briga que machuca e confunde ou de uma separação difícil de elaborar.

Porém, ela acrescenta: a mais grave de todas é a chamada crise patológica. “As anteriores são elaboradas de acordo com o momento e recursos emocionais que cada um tem, mas que, no devido tempo, passam. A patológica, como o próprio nome indica, gera doenças que, por vezes, só com tratamento medicamentoso ou psicoterapia consegue resolver”, alerta.

MATURIDADE

Ela esclarece que uma crise bem superada pode trazer situações inéditas que resultam, com certeza, em maturidade. Por outro lado, quando não existe um bom nível de tolerância à frustração e busca pelo entendimento, pode resultar em um tremendo caos, com consequências graves, como uma descompensação emocional que pode chegar até ao suicídio.

“É muito comum a angústia, a culpa e a raiva andarem de mãos dadas para resultarem em quadros depressivos. Cada qual sabe da dor que sente, mas, infelizmente, nem sempre está pronto para saber suportar, elaborar e superar o que a vida lhe reserva. Pessoas com história de vida muito sofrida e que não conseguiram superar a dor emocional que resultou de suas experiências, estão mais fragilizadas. Mas podem ser fortalecidos por um processo psicoterapêutico. É o conhecimento de si mesmo que fortalece as defesas para lidar com o mundo”, analisa.

A vida não é linear, diz coach

Para Felipe Ormonde, consultor em desenvolvimento humano, as crises não existem para derrubar as pessoas, pelo contrário, ele afirma que a crise nos dá a oportunidade de perceber alguma coisa nova. Mas algumas vezes a pessoa se recusa a perceber.

“O nosso grande desafio é perceber que nossa vida não é linear, a nossa vida é uma curva sigmoide. Em qualquer situação que a gente esteja de vida o processo da renovação é fundamental. É preciso entender que não vivemos para nos acomodar e sim para estarmos em um processo de mudança, de crescimento constante”, aponta.

Para que esta transformação ocorra, Ormonde afirma que é preciso perceber os sinais da vida e fazer as mudanças necessárias. “Aceitar as mudanças representa um salto qualitativo que nos possibilita começar uma nova etapa da vida com uma nova consciência. Se isso não ocorre, o que poderia se transformar em um novo ponto de crescimento se transforma em uma ruptura, que é a crise”, alerta.

Luiz Felipe alerta que se a crise não for superada, ela pode ir fundo e criar depressão, desânimo e tristeza na vida da pessoa. “Se ela entrar num processo mais forte de nível emocional e se desequilibrar muito para superar essa crise, vai precisar de algum tipo de apoio de psicólogo, psiquiatra, terapeuta ou de um coach que vai ajudá-la a superar essa crise”.

O poder da fé

Para o personal coach Felipe Ormonde, as pessoas têm encarado a vida de forma material, só em busca da sobrevivência,  sem uma visão mais ampla, mais espiritual e de sentido à vida. “A grande crise que todos nós estamos passando de uma forma ou de outra hoje é a crise de sentido, a crise de falta de significado na vida. E o que a gente precisa é isso: encontrar um significado, um sentido maior das nossas vidas porque isso pode mudar tudo”, constata.

De acordo com o teólogo e doutor em Sociologia da Religião Alberto da Silva Moreira, professor no Departamento de Filosofia e Teologia da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC), em situação de crise a religião pode ser uma força poderosa para levar as pessoas a assumirem sua fragilidade constitutiva.

“A fé é uma força poderosa que pode ajudar as pessoas a se reencontrarem consigo mesmas. A fé contribui para que as pessoas se reestabeleçam através da fé em que elas creem em um ser transcendente. A fé as ajuda a perceber que o sofrimento faz parte da caminhada e também do aprendizado”, declara.

Ela explica que a experiência da cruz vivida por Jesus, em que ele foi o primeiro a dar um exemplo de suportar e superar as dores e dificuldades, é um modelo que as pessoas acabam se influenciando. “Uma pessoa de fé dificilmente perde totalmente a esperança diante de uma situação de sofrimento”.

Mesmo não havendo nenhuma garantia, a pessoa se sente amparada por uma força maior, até mesmo em casos de extremo grau de fragilidade. “A pessoa que tem fé sabe que é frágil, não indo além de suas possibilidades. Ela é capaz de integrar também a negatividade da vida no horizonte da existência fundada em Deus”.

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