Demanda maior gerada pelo calor amplia riscos de apagões

Além de impedir o avanço de projetos de geração de energia, o atraso na construção de linhas de transmissão no Estado – licitadas em 2014 e que já deveriam estar concluídas pelo cronograma original – traz de volta dúvidas sobre a garantia de o Rio Grande do Sul não passar por apagões localizados neste verão. 

O cenário seria possível em caso de grande crescimento do consumo por conta da alta temperatura, aliado a queda nos níveis dos reservatórios das hidrelétricas gaúchas, grande redução no despacho de parques eólicos e esgotamento das linhas atuais onde trafega a energia de outras regiões ao sul do país. Cerca de 40% da luz consumida no Estado vem de fora. Apesar disso, o operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) descarta o risco nesta temporada.

A preocupação é atenuada pelo fato de o consumo não ter se recuperado após a recessão que atingiu o país. Mesmo assim, existe receio para os próximos anos, com o reaquecimento da atividade. As linhas de transmissão que deixaram de ser construídas, um pacote de obras de R$ 4 bilhões, foi a leilão novamente na quinta-feira passada. Antes era um lote só. Agora, foi fatiado em quatro, além de um adicional que também passa por Santa Catarina. A previsão é que sejam concluídas apenas daqui a quatro anos.

O recorde de demanda de energia no Estado foi verificado às 13h52min de 6 de fevereiro de 2014, com 6.902 megawatts (MW). Nos verões seguintes o mais próximo foi registrado às 14h9min do dia 27 de janeiro de 2015: 6.641 MW, 3,8% abaixo do recorde. Neste ano, o maior consumo foi observado em 17 de dezembro (6.217 MW). O presidente da Associação Brasileira de Geração de Energia Limpa (Abragel), Ricardo Pigatto, vê riscos caso todos esses fatores apareçam juntos. 

– As linhas atuais e os transformadores ficaram velhos. Não teve reposição. Pode haver sobrecarga e queda do sistema. Com essa falta de capacidade, o operador tem de restringir a carga, e causar pequenos apagões, cortes seletivos – diz Pigatto, que aponta risco maior do problema no Litoral Norte e na Serra.

Especialista no setor, Paulo Milano, diretor da Siclo Consultoria, não vê grande probabilidade de “apaguinhos”, mas ressalta que não é uma situação que possa ser descartada pela proximidade do limite da capacidade de transmissão.

– Isso não está completamente afastado, não é impossível. Mas, como a atividade econômica está muito baixa, há certa folga para o sistema elétrico – pondera Milano.

Consultor de energia da Agenda 2020, Ronaldo Lague avalia que não haverá problemas no verão 2018/2019 devido à demanda ainda estar aquém dos anos pré-crise, mas alerta:

– Nos próximos anos é que a situação pode ficar complicada.

No final de novembro, o gerente-executivo do Núcleo Sul do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Manoel Botelho, esteve em Porto Alegre, na Secretaria de Minas e Energia, para reunião relacionada ao abastecimento no verão e também descartou riscos. Além da demanda menor, lembrou que cada vez cresce mais no Estado a chamada geração distribuída, em que consumidores (em residências, indústrias ou pontos de comércio) produzem a própria luz, especialmente com painéis solares. Em caso de um quadro crítico, também devem ser acionadas as térmicas Candiota (250 MW) e Sepé Tiaraju (248 MW) para reforçar a geração 

Em nota, o ONS informa que “não vislumbra a possibilidade de ocorrências no Rio Grande do Sul por conta do aumento da temperatura”. De acordo com o órgão, a carga de energia tem se mantido mais baixa do que o esperado em todo o país em razão da crise econômica. Assim, o Brasil estaria preparado para o aumento do consumo no verão. O operador sustenta, ainda, que “o sistema elétrico brasileiro tem condições de atender a carga da Região Sul, seja a partir de recursos energéticos próprios da região, seja a partir da transferência de energia de outras regiões ou do intercâmbio de energia com outros países”.


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